José Martí : modernidade e utopia

DOSSIÊ PENSAMENTO SOCIAL BRASILEIRO E LATINOAMERICANO

Mariza Veloso é professora do Departamento de Sociologia da UnB e do Ministério das Relações Exteriores - MRE* - Brasília, Brasil

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RESUMO
O artigo trata da trajetória intelectual e política de José Martí. Busca analisar as rupturas que o mesmo introduziu no campo cultural da América Latina, ao reescrever as relações entre civilização e barbárie, assim como entre literatura, história e política. Utilizou-se da crônica jornalística como arma de combate para introduzir um discurso novo que apontasse para outra modernidade, onde os grupos subalternos e esquecidos pudessem transformar-se em atores sociais, protagonistas da história latino-americana.
Palavras-chave: história; intelectual; modernidade; América Latina
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ABSTRACT
The article deals with José Martí's intellectual and political trajectory. I aim at analyzing the breakthroughs that brought Martí to the Latin American cultural field by motivating him not only to redraw the civilization barbarism lines but also to redefine the connections between literature, history and politics. As I attempt to demonstrate, Martí deployed the newspaper chronic as a weapon to introduce a new discourse that sought to highlight the existence of an alternative modernity, whereby subaltern and forgotten groups could become social actors and protagonists of Latin American history.
Keywords: History; intellectual; modernity; Latin America
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Introdução

José Martí é um dos intelectuais mais emblemáticos da América Latina. É um intelectual polígrafo, com vasta produção em ficção, poesia, crônicas, cartas e, sobretudo, por ter sustentado, ao longo de sua vida, uma posição política decisiva, desenvolvendo, em toda sua trajetória, uma postura de intelectual público, que buscou inaugurar um novo regime discursivo sobre a história, a cultura e a identidade latino-americanas.

Martí vive como um poeta e morre como herói. Como poeta, busca incessantemente encontrar a universalidade da cultura latino-americana entranhada em sua história profunda, que se manifesta através da vivacidade e riqueza de suas sociedades. Recusa-se a compreender a história da América Latina a partir do colonizador e do marco da conquista ou seja, da chegada do europeu em solo americano.

Martí definiu sua biografia entremeando-a com a história vivida pelo continente na segunda metade do século XIX, período em que estabelece uma configuração sócio-histórica específica, onde ocorrem rearranjos políticos, recomposições das elites governantes e das formas de institucionalização do Estado (ELIAS, 1990). Períodos também em que se consolidaram os Estados independentes após intensas lutas pela definição dos meios necessários para a construção da nação
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A segunda metade do século XIX foi, igualmente, um momento de consolidação dos processos de independência das metrópoles europeias e, contraditoriamente, iniciou-se, naquele período, o chamado neocolonialismo, que ocorre, principalmente, sobre a dominação da Inglaterra e da França. No entanto, é preciso registrar que, a partir de 1860, aprofundando-se na década de 70, irrompe, com muita força, a influência da América do Norte, que será decisiva a partir dos anos 80 do mesmo século.

O domínio da América do Norte vai se concretizando pela anexação de territórios latino-americanos ao futuro grande império que, então, dá início à construção de uma estratégia de dominação imperialista.

É nesse contexto que vive Martí. Nasceu em Havana, Cuba, em 28 de janeiro de 1853 e morreu na província de Boca de los Rios, sua terra natal, no dia 19 de maio de 1895. Martí conheceu diversos exílios - o que não o afastou de seus propósitos em relação à luta pela independência de Cuba e para reconstruir e inaugurar uma nova maneira de pensar a totalidade histórica nomeada como América Latina (Hispano-América), dotando-a de uma identidade própria, diferente daquela construída pelos colonizadores europeus.

A trajetória de Martí - um intelectual obstinado

Martí foi exilado de Cuba com apenas 18 anos, indo residir na Espanha. Viveu em vários países latino-americanos, até fixar-se nos EUA, onde viveu por 15 anos. Retornou a Cuba como o soldado-poeta e morreu pela pátria, acreditando na futura nação livre e numa América Latina emancipada de toda forma de dominação.

A trajetória de Martí caracterizou-se por dois eixos: as construções discursivas do latino-americanismo e do anti-imperialismo. Deve-se registrar, também, que tais elaborações estão ancoradas num profundo humanismo ecumênico e libertário (PABLO RODRIGUES, 2006).

Embora não oriundo das classes dominantes, nem das elites políticas ou culturais, Martí será sempre um intelectual da "república das letras", dada sua sólida formação acadêmica, construída na Espanha, em Direito, Filosofia e Letras.

Martí empenhou-se resolutamente em ampliar a república das letras e, para tanto, utilizou-se da crônica jornalística, transformando-se no poeta-soldado, cuja arma será a escrita, até transformar-se no soldado-poeta, que, com a morte em batalha, conclui seu gesto de libertação e deixa sua marca no edifício da utopia latino-americana, sempre em busca para encontrar sua marcha na história.

Martí foi amadurecendo progressivamente sua concepção de unidade continental e a necessidade de construir uma identidade latino-americana.
Propôs uma estratégia completa para a libertação nacional de Cuba e do continente, realizando, nesse mesmo movimento, uma crítica veemente ao liberalismo, ao republicanismo, assim como ao positivismo e às ideias "obsessivas" de progresso técnico e científico dos intelectuais e políticos latino-americanos.

Martí também compreendeu o vertiginoso desenvolvimento industrial dos Estados Unidos e os riscos da formação de monopólios que atuassem no continente, o que poderia minar, ainda mais, os fundamentos democráticos da América Latina.

Foi após seu período de exílio na Espanha que residiu no México, Guatemala, Venezuela e nos Estados Unidos. Com 22 anos, em 1875, chegou à Cidade do México, entrando em contato com a pujante cultura do país, momento em que começa a formular o conceito de autoctonia e identidade latino-americana. A partir de então, Martí formula três ideias principais:

A América Latina é constituída por povos novos;

Existe uma natureza particular americana, com características espirituais e uma psicologia social - próprias e peculiares;

A América Latina - com suas especificidades e particularidade - exige análise e soluções próprias: "para conflitos específicos, soluções específicas" (MARTÍ, Nuestra América).

Na Guatemala, a ideia de autoctonia ganha fundamentação histórica, sociológica e cultural.

A partir da elaboração mais sistemática do conceito de autoctonia, começa a perceber a América Latina como uma unidade histórico-social resultante da relação entre elementos "naturais" e "civilizados" (PABLO RODRIGUES, 2006).
Para ele, um dos grandes problemas da América Latina é que o processo de colonização interrompeu, ou mesmo cortou, o desenvolvimento da civilização dos povos aqui existentes. Em sua concepção, a colônia foi justamente a negação do ser latino-americano.

Na Venezuela, fez críticas ainda mais veementes ao liberalismo das repúblicas latino-americanas e percebeu que as elites só beneficiam a si próprias, às potências europeias e aos Estados Unidos. O povo continua pobre, as economias baseadas na monoprodução agropecuária e exploração dos recursos naturais, e as elites não promovem o desenvolvimento econômico e social prometido.

A partir dessa fase, Martí toma consciência da necessidade de construir, criar, agitar e fundar a América Latina.

Em Caracas, visita a imponente estátua de Bolívar e faz-se herdeiro de sua utopia sobre a unidade continental. Escreve uma das mais belas crônicas sobre Bolívar, utilizando-se abundantemente de metáforas como vulcão, parto e nascimento referidas a uma nova América. (PABLO RODRIGUES, 2006).

Seu último período de vida foi passado em Nova York, onde chegou em 1881 e permaneceu por 15 anos, até 1895. Em Nova York, vivencia um período de efervescência da economia americana, com seu extraordinário surto de industrialização e modernização em todos os setores da vida social, seja nos meios de transporte, na pulsação frenética da vida urbana e, principalmente, no grande desenvolvimento do mercado de bens simbólicos, como a imprensa, o mercado editorial, a vida universitária, etc.

Martí mantém uma atitude ambígua em relação a essa modernidade. Considera positiva a maior liberdade que a nova vida urbana permite, antevendo uma possibilidade de ampliação da "república das letras", na medida em que os novos meios de comunicação (jornal, livro) permitem um maior acesso aos bens culturais, promovendo uma circulação mais democrática desses mesmos bens.

Por outro lado, refutava o mercantilismo, o consumismo e o predomínio da vida material sobre a espiritual. Além disso, mostrava-se sempre crítico da política monopolista e protecionista dos EUA.

Nesse momento, começa a mudar o eixo da identidade/alteridade da América Latina. O outro da América Latina deixa de ser a Europa e passa a ser a América do Norte - o gigante do Norte, que tem "passos de sete léguas" (Nuestra América). Os Estados Unidos passam a definir um padrão de modernidade e desenvolvimento econômico e social, o que passa ser almejado por intelectuais e políticos latino-americanos. Essa atitude é duramente criticada e negada por José Martí, que considerava o Norte frio e calculista, negociante, "metalizado", corrupto, em oposição ao Sul, profundamente imaginativo e sensível.

Cristalizava, assim, uma oposição entre América do Norte e América do Sul. A crítica a uma certa modernidade passa a ser fundamental para Martí: encontrar um caminho próprio para a América Latina, caminho que possa coincidir com sua "originalidade histórica". Defende uma modernidade que promova o exercício da liberdade e da igualdade, mas não na perspectiva liberal que considerava tais dimensões apenas do ponto de vista formal.

Ao contrário, Martí advoga a relação das ideias de liberdade e de igualdade com a autonomia do ser individual, social e nacional. Nesse sentido, buscou sempre estabelecer um elo entre a reflexão filosófica, a produção literária, a política e a história, o que o fez defender a necessidade permanente de construir um saber crítico acompanhado de responsabilidade ética.

Contra o pragmatismo e o materialismo que balizam as ideias de progresso e de modernidade, Martí propõe construir uma "República Moral da América".
A partir desse momento, assume completamente a existência de duas Américas e, ao mesmo tempo, torna aguda a consciência do avanço do capitalismo norte-americano sobre o continente. Mais do que nunca, era preciso fortalecer a identidade latino-americana. (PABLO RODRIGUES, 2006).

Visão do intelectual, da escrita e da literatura

As peregrinações pela América descortinaram, para Martí, a realidade cultural latino-americana, plena em sua diversidade e em sua força expressiva, e é nesse momento que escreve sua crônica paradigmática Nuestra América, em 1891.

A consciência da especificidade da América do Sul (ou Hispano-América, como ele denominava) transforma-se na necessidade de fortalecer a consciência coletiva latino-americana para impedir mais um movimento colonial de imposição e exploração do continente, agora por parte do vizinho do norte.

Martí torna-se o primeiro grande anti-imperialista no horizonte intelectual da época. Em 1889, assiste e participa da Primeira Conferência das Nações Americanas em Washington, em cujo bojo se deu a construção do discurso pan-americanista, que encontrou em Martí um crítico veemente.

Martí não é um intelectual ocidentalizado, europeizado. Sabe que os modelos importados são inadequados para implementar o caminho de desenvolvimento e emancipação da América Latina. Assim, pensa a partir do colonizado, sua singularidade histórica e seu lugar subalterno e, até mesmo, sua ausência nos discursos modernizadores vindos de fora.

Como Bolívar, considerou a especificidade da América Latina: "nós somos um pequeno gênero humano". Martí lutou bravamente contra a ideia de que somos um prolongamento ou extensão da Europa. Assim, vai contra o pensamento dominante durante todo o século XIX, de que a cultura latino-americana é um ramo derivado da árvore europeia.

Martí, ao longo de sua vida, buscou modificar o modo de ser do intelectual e sua forma de atuação no contexto latino-americano. Procurou sair da "república das letras" e alcançar o espaço público, o que fez não só através de uma atuação sistemática na imprensa de vários países. Foi colaborador de jornais como La Nación, de Buenos Aires; El Partido Liberal, do México; La Opinión Nacional, de Venezuela; e, ainda, La Opinión Pública, do Uruguai.

Atuou também como cônsul em Nova York, representando vários países latino-americanos como Uruguai, Argentina e Paraguai. Foi, ainda, presidente da Sociedade Literária Hispano-Americana, em Nova York, além de fundador do Partido Revolucionário Cubano (1892) e grande articulador político e cultural dos imigrantes latino-americanos na América do Norte.

Além de enfatizar e discutir, sobretudo, a realidade latino-americana, buscou também construir um discurso mais abrangente que pudesse ser endereçado a outros países, em outros continentes, que igualmente tinham experimentado a condição de colonizado.

Assim, considera, como seus interlocutores, outros povos colonizados e periféricos, como os árabes, os africanos e asiáticos, igualmente considerados "bárbaros". Busca, desse modo, construir um discurso mais universalista, a partir do qual afirma: "pátria é a humanidade".

Conforme Martí, era preciso que o intelectual deixasse sua atitude passiva de simples imitação dos modelos de nação e modernidade, construídos em realidades alheias. Dessa forma, não adota acriticamente o conceito de "civilização". A esse respeito contrapõe-se, decisivamente, a Sarmiento, que defendia a adoção pura e simples do modelo de civilização viabilizado nos países capitalistas "avançados", especificamente os EUA.

Martí considera a dicotomia, definida por Sarmiento, entre civilização e barbárie, como uma falsa oposição que reflete muito mais a imposição de um discurso hegemônico que favorece a dominação de países europeus e da América do Norte sobre o continente sul-americano. Assumindo posição oposta, Martí dirá: "não há batalha entre civilização e barbárie e, sim, entre a falsa erudição e a natureza". Nuestra América, escrito em 1891, é um texto pungente que afirma a positividade da originalidade do continente. Reconhece e afirma a especificidade da América, a qual nomeia de mestiça, composta de europeus, índios e africanos.

Com essa visão, defendia que a modernidade latino-americana, a construção de suas nações e de seus procedimentos para o exercício da democracia e da cidadania, incorporasse o indígena, os negros, os camponeses pobres, ou seja, toda a população. Martí foi incansável ao defender a necessidade de conhecer, pesquisar e valorizar a realidade latino-americana. Para ele, era preciso que os intelectuais e políticos conhecessem, discutissem e valorizassem o tempo real do continente, sua história e vicissitudes, e não apenas desejassem ajustar o relógio do continente ao tempo e ritmo das sociedades capitalistas centrais (RAMOS, 2008). Martí recusava o pensamento dominante da época que, segundo ele, propunha uma "falsa modernidade" para América Latina, "com casaco de Paris e pés descalços".

Ao sugerir uma nova postura para o intelectual, ao afastar o conceito de raça e enfatizar o conceito de cultura e "originalidade" para pensar o continente latino-americano, Martí antecipa o modernismo latino-americano que, a partir do final do século XIX, irá florescer em vários países do continente. No entanto, não recusa a modernidade como um todo. Reconhece que tanto a Europa, quanto os EUA produziram muito, em várias direções, através de diferentes procedimentos, invenções e técnicas que podem ser úteis para a Nuestra América, como a ciência, a indústria, novos meios de transporte e o vasto cabedal das letras e das artes. Não desconhece as grandes realizações dos países metropolitanos, mas também conhece suas limitações e seus crimes.

Interpretação da modernidade, da cultura e da política

Martí foi o intelectual mais público de todos os que viveram e atuaram ao longo do século XIX. "Foi um letrado, mas não um intelectual orgânico do poder" (RAMOS, 2008, p. 83).

Ao longo do século XIX - especialmente após o período das independências e no decorrer do processo de construção da nação, tema central nesse período - o campo intelectual é paulatinamente construído e não sem dificuldades, que lentamente adquire certa autonomia do campo político (BOURDIEU, 1998).

Martí tem consciência da pouca especialização do campo intelectual que, segundo ele, estava relacionado com a fraca diversidade das atividades produtivas, uma vez que muitas das sociedades latino-americanas ainda se encontravam numa situação pré-industrial, com uma burguesia incipiente.

Martí introduz uma ruptura no modo de ser do intelectual latino-americano. Os intelectuais da primeira metade do século XIX procuraram usar a escrita e os códigos da "república das letras" como arma de combate contra a barbárie e a favor da modernização. Através da escrita, procuravam ordenar o caos, a barbárie americana, a oralidade, o analfabetismo e a natureza selvagem do continente.

No mesmo século, descortinou-se, na América Latina, uma estreita relação entre as letras, a literatura e a política, que perdurou em vários países até a década de 70. Assim, por um longo período, a literatura esteve empenhada num projeto modernizador, em estreita relação com a política estatal.

Os intelectuais engajados nesse projeto, como Andrés Bello, Sarmiento, anteriores ou contemporâneos de José Martí, estão interessados na arte do "saber dizer", da "boa palavra", evidenciando nossa capacidade de participar da cultura europeia, letrada e culta. Eles estavam informados pela matriz do iluminismo, do liberalismo e do positivismo e buscavam o progresso e a modernização, cuja discussão desemboca na antítese civilização x barbárie.

Para eles, o outro da América Latina era a Europa, e a tarefa a que se propunham era aproximar-se o máximo possível desse padrão de civilização.
Com a introdução do positivismo, começa a ocorrer um movimento de crítica em relação à postura beletrista e distante da realidade, por parte dos intelectuais, considerados os "artistas da palavra". Requer-se, agora, agir, "intelectuais da ação" que façam uso da razão e sejam capazes de atuar na realidade, de modo lógico e racional.

José Martí traz em sua produção intelectual um outro saber. Seu livro Ismaelito, traz uma visão diferenciada, onde a realidade é analisada a partir da ótica do menino, do árabe (profeta Ismael) e do ócio e da imaginação.

Neste momento, a literatura deixa de ser portadora de um discurso disciplinador, rumo à socialização "moderna" das práticas sociais e culturais. (ANDRÉS ROIG, 2000)

Para Martí, "uma tempestade é mais bela do que uma locomotiva". Nessa nova postura, a literatura transforma-se em crítica da modernidade europeia e da americana do Norte. Conforme palavras de Martí: "nem o livro europeu, nem o livro ianque possuíam a chave do enigma hispano-americano".

Martí, apesar de posições ambíguas quanto à autonomização do campo literário, via com bons olhos tal autonomia, uma vez que esta possibilitaria o aparecimento de um mercado editorial, além de outros procedimentos que facilitariam a diferenciação do campo cultural e literário do campo político.
Martí, ao lado de outros intelectuais, vai estabelecer uma ação firme contra a intervenção política no campo cultural, isto é, literário, uma vez que a dimensão política é concebida como prática estatal, ou seja, ligada às repúblicas que adotavam um liberalismo artificial. Segundo ele, a prática literária aparece como lócus de reserva moral da tradição latina contra o materialismo "deles", os norte-americanos.

Martí empenha-se em construir e utilizar o conceito de cultura como matriz do latino-americanismo. Assim, reivindica à singularidade latino-americana a autoridade cultural dos intelectuais, como eixo normativo do nós latino-americano, discurso que implica numa crítica ao projeto modernizador dos Estados Unidos, calcado mais na economia do que na cultura e na totalidade da sociedade.

Apesar de ser favorável à autonomização do campo da cultura e da literatura, Martí era contra o distanciamento entre vida e literatura, ou entre arte e vida, ou política e literatura.

É preciso registrar que ele contribuiu com o discurso da legitimação e especialização da literatura, desde os anos 80 do século XIX. Tal posição deveu-se à sua experiência em Nova York, onde observara o cosmopolitismo, presente em uma complexa e variada vida urbana, que favorecia a disseminação de valores, garantindo expressiva dinâmica ao mercado de bens simbólicos. Particularmente, a grande diversificação que então ocorre na imprensa escrita, se expressa, de modo especial, na abundante oferta de jornais e livros.

Martí, igualmente, percebe que nem a cultura, nem a literatura estão completamente autonomizados no contexto latino-americano. Sabe que o livro não era, no final do século XIX, um bem de ampla circulação, praticamente em nenhum país latino-americano. Nessa época, o jornal tinha mais penetração nas diferentes sociedades e era um meio capaz de veicular diferentes matérias e conteúdos, inclusive a crônica - gênero de grande importância e repercussão, por tratar da "matéria heterogênea" do cotidiano (ROIG, 2000).
A vida urbana torna-se um cenário onde se descortinam os conflitos e contradições da modernidade ocidental ou, especialmente, da norte-americana.

Martí dedica-se aos gêneros da crônica e do ensaio. Através da crônica afasta-se de um discurso normativo de modernidade e localiza o cotidiano, a rua, a realidade dos imigrantes desterritorializados, como ele, em Nova York, a grande cidade capitalista. Com a publicação sistemática de suas crônicas pretende atingir maior número de pessoas que passam compartilhar suas experiências, quer publicizar a cultura e a literatura. José Martí começa, então, a articular uma nova conexão entre literatura, cultura e política.

Além da crônica, utiliza-se igualmente da forma ensaio, muito frequente em vários intelectuais latino-americanos. No Brasil, torna-se comum, nos anos 1930, com os clássicos ensaios sócio-históricos do modernismo heroico, de Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda e Caio Prado Júnior.

Segundo Ramos, "a forma ensaio representa o lugar ambíguo do literato perante a vontade disciplinar característica da modernização, e a imaginação e a sensibilidade do escritor" (RAMOS, 2008 p. 246). O ensaio é adequado ao intelectual latino-americano, uma vez que situa-se entre a poesia e a ciência, onde é possível, portanto, introduzir a subjetividade do escritor.

Em Nova York, Martí assiste ao espetáculo da vida urbana. Ao primeiro momento de deslumbramento, com o que considera a possibilidade da convivência pacifica entre grupos diferentes, sucede-se um momento de reflexão, onde o intelectual repara na "realidade apavorante" da grande cidade, a ocorrência não só de um cosmopolitismo universalizante das diferenças, mas também, de um dilaceramento do ser, que vivencia a sedução vazia da grande cidade moderna.

Martí exclama: "meu eu explode!"

Martí percebe em Nova York o reflexo de uma outra Europa, não a do luxo, da riqueza, da "civilização", mas a do imigrante pobre, buscando sobreviver dentro da máquina hostil do capitalismo. Em seu longo período em Nova York, vai se tornando mais crítico da grande metrópole, das perversidades do capitalismo que avança em direção aos grandes conglomerados industriais.

Martí alcança grande maturidade intelectual, sua análise do "gigante do Norte" o faz observar com mais acuidade a realidade difícil dos imigrantes latino-americanos na América. De igual modo, constata a complexidade da realidade latino-americana, a desarticulação da elite política com o povo, a pobreza e a desigualdade de muitos países. Todas essas condições fazem com que Martí sinta uma urgência para assumir novas atitudes frente ao mundo e à vida.

Quer ser um "poeta em ação". Segundo Ramos (2008), Martí, em Nova York, opera o conceito de escritor como trabalhador. A crônica jornalística é o lugar onde coloca em prática tal conceito.

O mesmo autor analisa a posição ambígua de Martí em relação à cidade, pois esta, "no mesmo movimento em que gera "crise", "alienação" ou "exílio", é, por outro lado, a condição de possibilidade da autonomia do intelectual frente às instituições tradicionais, autonomia que era indispensável para o intelectual moderno, em contraste com o letrado ou escritor "tradicional", uma vez que através da crônica dos acontecimentos cotidianos, da rua, dos anônimos, mostra-se outra face da modernidade (RAMOS, 2008, p. 165).

José Martí foi um intelectual-viajante, conheceu e viveu em vários países especialmente latino-americanos. Do mesmo modo, viajou muito dentro dos Estados Unidos, indo da costa leste (Nova York) para a costa oeste (Califórnia e Flórida), onde viviam grande parte dos imigrantes cubanos.

Martí foi, sobretudo, um intelectual exilado. A experiência de exílio, da desterritorialização, permitiu-lhe um distanciamento frente à realidade, em cujo espaço surge a brutal necessidade da escrita. Uma escrita que descortina o outro em seu deslocamento, em seu "não-lugar". Poderíamos, aqui, citar Adorno, igualmente um intelectual exilado, que afirmou: "no exílio a única casa é a escrita" (ADORNO, 1984). Na interpretação de Júlio Ramos (2008), "O exílio consigna a queixa do sujeito que reivindica voz para os deslocados pela racionalidade mercantil".

Assim, a atitude do intelectual exilado na cidade permite a Martí fazer a crítica da cidade, pois assume um distanciamento que o autoriza fazer a crítica da modernização que, por sua vez, modifica a dinâmica da vida urbana.

Discurso dissonante - A busca de outra modernidade

Sabe-se que as ideias referentes à América Latina não constituem um campo discursivo dado, constituído, anterior às interpretações e representações a seu respeito. Nesse sentido, a ideia de América Latina deve ser compreendida como um campo de lutas, onde diversos postulados, dispositivos simbólicos e construções discursivas encontram-se em confronto permanente, para garantirem autoridade e legitimidade para nomear as experiências históricas e a realidade social latino-americana.

Conforme Ramos, "por trás de cada postulado sobre o latino-americano há um desejo de poder, exercido a partir de lugares diferentes no mapa das contradições sociais" (RAMOS, 2008, p. 262). Dessa forma, ao longo do século XIX, até os dias atuais, é incessante a luta de retóricas e discursos - às vezes até acompanhada de conflitos armados - onde se disputa "nossa" identidade.
Nuestra América, de José Martí, ensaio-crônica escrito em 1891, tornou-se um texto clássico do pensamento social latino-americano e ocupa lugar de destaque nesse campo de lutas. E por que tornou-se um clássico do pensamento e desfruta de enorme poder referencial?

Além da beleza da escrita e da inventividade das ideias, seu texto assume, desde o título, um nós latino-americano. Define, portanto, uma identidade. Quem está incluído ou excluído desse campo da identidade? A partir de que lugar, de que posição é enunciado, é construído discursivamente esse nós que conforma uma identidade específica?

O discurso da identidade em Nuestra América apoia-se em um relato da história, mediante o qual Martí coloca a problemática central de toda sua obra - "o enigma hispano-americano" -, que seu próprio discurso buscará resolver (ROIG, 2000).

Segundo esse relato, a história americana não é um processo no qual o "ser" é formado de modo harmônico e progressivo, acumulando os traços essenciais de sua identidade. A identidade não se representa como uma totalidade anteriormente constituída. Ao contrário, em Nuestra América, o ser americano é representado como efeito da violenta interação de fragmentos que tendem, anarquicamente, à dispersão (RAMOS, 2008, p. 264). Em Nuestra Madre, outra crônica paradigmática de Martí, afirma que a América Latina não possui uma unidade orgânica em seu corpo: o corpo da América foi "desconjuntado" e "decomposto".

Conforme Martí, a história da América Latina descortinou uma identidade constituída "com restos de códigos, com fragmentos incongruentes de tradições em luta. Esse corpo (o corpo da mãe) é produto de uma violência, da história de uma desarticulação das "origens confusas e manchadas de sangue" (Nuestra Madre).

O discurso martiniano sobre a sociedade e identidade latino-americanas reconhece e afirma a realidade da fragmentação e busca desesperadamente condensar o disperso, reativar a totalidade orgânica, "original," perdida, mas presente em nossa memória e em nossa história.

Na interpretação de Júlio Ramos,Martí busca sua autoridade discursiva através de sua proposta reintegradora baseada na projeção de um porvir, numa teleologia que postula a superação definitiva da fragmentação; a redução, ao final, de uma América, orgânica, purificada das manchas que tornavam opaca sua plenitude originária. (RAMOS, 2008, p. 266).

Na concepção de Martí, a História deve ser vista não como o devir harmonioso de uma perfeição futura, mas sim como um processo de lutas contínuas, que se verifica desde nosso "passado sufocante", o processo de colonização. Foi tal "passado sufocante" que ensejou a dispersão e distanciou o corpo da América de sua harmonia original.

No entanto, não só a colonização que introduziu o peso e o fantasma permanente de um "passado sufocante", mas também, as guerras entre países irmãos, as disputas entre grupos da elite pelo poder, ou como definiu Martí, as "discórdias parricidas", transformaram a história da América Latina em ruínas.

Embora Martí e Benjamin possam ser aproximados quanto à concepção de história como ruína, Martí se afasta de Benjamin porque rejeita uma poética da fragmentação. Em Martí, fragmentação produz terror e angústia. Conforme Ramos:

A dispersão produz a nostalgia de um sujeito que vê no passado o começo incessante de uma catástrofe e tenta reconstruir - com a matéria desfeita arruinada da experiência histórica - a solidez do fundamento, a estabilidade perdida. (RAMOS, 2008, p. 266).

Em sua estada nos EUA, Martí percebe a existência e a ameaça de um "grande outro", mas igualmente começa a despertar nele uma consciência de que o outro não é só externo, mas também interno. Assim, nossa identidade não é tecida a partir de matéria homogênea, do mesmo - reflexo da Europa -, mas composta de muitos outros, que carregam a marca de sua singularidade cultural.

Assim, em Martí, a história é feita de tensão. Tensão entre o passado, o presente e o futuro, porém, se o passado obstrui a história, como vislumbrar o futuro?

Outra tensão registrada por Martí refere-se às lutas internas dos grupos sociais das sociedades latino-americanas, especialmente lutas internas dentro da própria elite. Tais "discórdias parricidas" constituem o que Martí denominou o "tigre de dentro" que ameaça a unidade latino-americana. Mas a outra grande ameaça ao continente é o "tigre de fora", ou seja, a ameaça da dominação externa, na concepção de Martí, naquele momento representado basicamente pelos Estados Unidos da América do Norte.

A história da América Latina é feita da tensão entre "tigre de dentro" e "tigre de fora", o que introduz, na discussão martiniana, a dialética dentro/fora, ou dito de outra forma, entre identidade/alteridade, o que o leva a concluir que a identidade da América Latina é entremeada de muitos outros.

Martí comporta-se como os intelectuais letrados anteriores a ele, que representam a América como "desconjuntada". Assim, todos desejam postular alguma unidade, alguma homogeneidade, como resposta ao "caos" latino-americano e à desarticulação de suas sociedades, que são o fruto de um processo histórico e não de condições raciais ou geográficas.

Nesse momento de sua reflexão, Martí procura novas bases e novas categorias para pensar a América Latina. Assim, começa por repensar e reescrever as dicotomias clássicas da retórica latino-americana como civilização e barbárie, cidade e campo, modernidade e tradição.

Martí abandona tais dicotomias e "inverte essa economia de sentido com uma reivindicação do 'autóctone', do 'homem natural', como fundamento necessário, ainda que esquecido e manchado de sangue, da definição do ser latino-americano" (RAMOS, 2008, p. 267).

Em alguns momentos de sua trajetória, Martí, no entanto, critica duramente os intelectuais tradicionais ou aqueles "orgânicos do poder", de modo geral, ligados às instituições estatais, ou os intelectuais da "república das letras", ligados às elites nacionais, políticas culturais ou econômicas. Para ele, tais intelectuais excluíram a particularidade cultural, a dimensão autóctone da representação da realidade latino-americana.

Nessa chave da reflexão, Martí explica o caos latino-americano, não como uma característica essencial e imutável, mas como consequência da má representação e interpretação dos intelectuais identificados por ele como "letrados artificiais".

Tal representação "falseada" da América Latina reflete o "discurso do livro importado"; em contrapartida, Martí propõe a construção de uma biblioteca alternativa que permitisse consultar o arquivo da tradição da cultura latino-americana.

Nesse diapasão, Martí afirma: que "nem o livro europeu, nem o livro ianque nos serve". É preciso, então fazer a leitura de nossa própria história e de nossa própria natureza. Assim, pode-se perguntar o que as categorias natureza e homem natural significam no pensamento de Martí?

Martí propõe que o intelectual latino-americano busque o "saber da terra", uma vez que nossa identidade deve estar ancorada no mais profundo de nossa natureza - "como a prata na raiz dos Andes". A narrativa de Martí em Nuestra América sugere que o mesmo considera a natureza latino-americana como cultura. Poder-se-ia interpretar natureza singular e única como o equivalente de cultura?

A ideia de homem natural, em Martí, não possui nenhuma relação com uma perspectiva "naturalizante" da história e da sociedade, conforme pressupostos do discurso positivista que supõe a sociedade e as relações sociais como "dadas", como prolongamento da natureza.

O homem natural latino-americano, em Martí, é o registro de um homem portador de uma cultura singular, que teve sua existência, florescimento e transformações exclusivamente no continente americano.

Para Martí, a identidade de Nuestra América só poderia ser robusta e consistente se reencontrasse o caminho da história verdadeira, real da América Latina, que incorpora o "índio mudo", o "negro aviltado" e "o camponês" marginalizado pela cidade desdenhosa. Nuestra América propõe a construção de um nós feito, justamente, com a matéria excluída pelos discursos dos intelectuais letrados e dos Estados modernizadores.

Martí, ao contrário de Sarmiento, recusa o intelectual que se autorrepresenta e se autolegitima como um viajante, um tradutor, um mediador entre a página em branco da barbárie (deserto) latino-americanos e a biblioteca europeia. Para Martí, muitos "intelectuais orgânicos" formularam discursos colonizadores, que foram por ele denominados, em conjunto, como "tigre de dentro", que o mesmo identificou como uma das causas da "enfermidade" latino-americana.
Dessa forma, concorda-se com a interpretação de Júlio Ramos (2008, p. 269), quando ele afirma: "Em Nuestra América, o 'caos' não é efeito da barbárie, da carência da modernidade. A decomposição da América é produzida pela exclusão das culturas tradicionais do espaço da representação política".

A barbárie da América Latina refere-se muito mais ao modo como é representada que, em geral, é resultado da exclusão dos subalternos, das culturas tradicionais e de todos os outros diferentes.

Assim, compreende-se porque a tradição no pensamento de José Martí possui uma função estabilizadora da valorização da identidade latino-americana. Através da valorização da tradição, Martí procura se opor aos discursos da modernização e do progresso, institucionalizados pelos aparatos estatais.
Martí busca os elementos naturais, autóctones, específicos da realidade.

Dessa forma, pretende afastar-se das formas importadas, dos modelos alheios. Critica, assim, o modelo de intelectual que se utiliza da literatura, ou da escrita em geral, de modo artificial, apenas interessado na retórica do "saber dizer", produzindo uma escrita e uma leitura apenas como ornamento.

Martí encarna aquele intelectual que deseja "saber conhecer", para agir na realidade. Conforme sua interpretação, um dos males que atinge as elites latino-americanas é a sua falta de conhecimento sobre a realidade de seus países. Martí propunha que, para bem governar, era preciso bem conhecer. No entanto, Martí nunca deixou de acreditar no papel da literatura em sua capacidade de rearticular, numa totalidade, os fragmentos da história e da experiência latino-americanas.

Há um desejo de unidade, um desejo de ordenar o caos, talvez um traço da herança iluminista que Bolívar lhe deixou. Dessa forma, ainda apoia-se na autoridade da literatura e sua capacidade de disseminação e de inauguração de outras representações sobre a realidade. Acredita, então, que a literatura é capaz de revelar a "alma da terra". Nesse sentido, aparece também em Martí, como em outros intelectuais latino-americanos, a relação entre literatura e o topos da fundação da nação.

Como Walter Benjamin, Martí acredita no poder adâmico da linguagem, ou seja, no seu poder de nomear a realidade, daí sua preocupação com uma política da representação no continente. Martí defendeu sempre a necessidade de incluir, em seu projeto de nação, as culturas tradicionais, os índios, os negros, os mestiços, os imigrantes e os brancos. Busca, assim, construir um "nós desierarquizado", que considerasse todos a partir de um mesmo patamar.

Martí também busca repolitizar o discurso literário. Mais do que isso, buscou levar a atitude estética para o próprio centro da vida pública latino-americana. Lutou pela autonomização do campo cultural, especialmente da literatura, introduzindo, assim, práticas e ideias modernas, apesar de afastadas dos discursos modernizadores do Estado.

Tradição, identidade e utopia

Na concepção de José Martí, os "intelectuais artificiais" construíram uma falsa dicotomia entre civilização e barbárie.

Barbárie, na concepção de Martí, era a exclusão dos grupos subalternos e das culturas tradicionais do projeto de nação das elites latino-americanas. Martí propõe uma modernidade a contrapelo, como Benjamin, que fosse diferenciada da ordem liberal do progresso e da modernização.

Segundo Benjamin:

A teoria e, mais ainda, a prática da social-democracia foram determinadas por um conceito dogmático de progresso sem qualquer vínculo com a realidade. A idéia de um progresso da humanidade na história é inseparável da idéia de sua marcha no interior de um tempo vazio e homogêneo. A crítica da idéia do progresso tem como pressuposto a crítica da idéia dessa marcha. (BENJAMIN, 1985, p. 229).

Tanto para Martí, quanto para Benjamin, a história é objeto de uma construção cujo lugar não é o tempo homogêneo e vazio, mas um tempo, sobretudo, de "agoras".

Martí não recusa a modernidade, mas recusa o paradigma eurocêntrico, capitalista e excludente do modelo de modernidade adotado pelos países centrais e por determinados grupos sociais, na obstinada marcha rumo ao progresso, assumida pelas elites latino-americanas.

Martí quis articular, organizar, inaugurar um novo tempo histórico para a América Latina. Um tempo que reconhecesse seu passado, a necessidade de extirpar seu peso funesto e, ao mesmo tempo, resgatar do esquecimento o "passado original" da América Latina, ou seja, sua realidade enquanto "civilização," antes da chegada do colonizador europeu.

Nesse momento, percebe-se mais uma vez uma aproximação entre Martí e Benjamin, quando este último afirma:

Articular historicamente o passado não significa conhecê-lo como ele de fato foi. Significa apropriar-se de uma reminiscência, tal como ela relampeja no momento de um perigo. Em cada época, é preciso arrancar a tradição ao conformismo, que quer apoderar-se dela. (BENJAMIN, 1985, p. 224).

Martí, ao longo de sua história de vida, definiu uma trajetória intelectual que transformou a escrita da arma do poeta em busca da "palavra adâmica", capaz de nomear, em um gesto inaugural, uma nova compreensão e representação da realidade latino-americana. Pode-se interpretar José Martí como um pensador radical, que levou às últimas consequências a estetização da política, chegando até ao máximo da estetização da política, que pode ser a guerra (BENJAMIN, 1985). No entanto, morreu como poeta, não como soldado. Morreu como herói da independência cubana e como batalhador da emancipação latino-americana.

Martí viveu construindo convicções e morreu por tais convicções. Sua utopia buscou identificar e construir a totalidade latino-americana, juntar suas ruínas e seus fragmentos. Ao morrer em ação, no campo de batalha, introduziu a utopia na história e mostrou a necessidade de uma luta permanente para sua realização, ou seja, uma América Latina altiva, onde das representações sobre sua identidade pudesse ecoar a voz da diversidade social e cultural do seu povo.

Referências bibliográficas
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Andrés Roig, Arturo (2000) El pensamento social e político iberoamericano del siglo XIX, Madri: Editorial Trotta. [ Links ]
Benjamin, W. (1985) Treze teses sobre o conceito de história. In Obras Escolhidas. São Paulo: Ed. Brasiliense. [ Links ]
Bolívar, Simon (1995) "Discurso de Angostura". In: Fuentes de la Cultura Latinoamericana. Org. Leopoldo Zéa. Fondo de Cultura Econômica, México. [ Links ]
Bourdieu, Pierre (1998) Economia da Trocas Simbílicas. São Paulo: Ed. Perspectiva. [ Links ]
Elias, Norbert (1990) O Processo Civilizador. São Paulo: Editora Zahar. [ Links ]
Foucault, Michel (1996) A ordem do discurso. São Paulo: Ed. Loyola. [ Links ]
Martí, José. (1983) Nossa América. Antologia Textos selecionados por Roberto Retamar. São Paulo: Ed. Hucitee. [ Links ]
Martí, José. (2011) Nuestra América - Nossa América. Brasília: Ed. UnB. [ Links ]
Pablo Rodrigues, Pedro (2006) Martí e as duas Américas. São Paulo: Ed. Expressão Popular. [ Links ]
RAMOS, Júlio. (2008) Desencontros da Modernidade na América Latina: literatura e política no século XIX. Belo Horizonte: Ed. UFMG. [ Links ]

Recebido em 28/05/11
Aprovado em 20/06/11

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